Um medo que assombra

sábado, 8 de outubro de 2011


Não tenho estado muito bem nesses últimos dias, mas encontrei esse texto que está descrevendo o momento pelo qual estou passando perfeitamente.

Meu dia é uma correria, sei que é fase e que o jeito é dar seu melhor para que a meta seja atingida, mas fazem falta umas horas a mais no meu relógio, e dentro de mim.
Sem palavras, estou oca. Sumiram, congelaram, evaporaram: não escrevo. Não faço mais reflexões absurdas, se quer converso com meus botões ou fico sozinha com meu zíper. O vulcão que sempre fui, adormeceu. Deixou toda a adrenalina para a corrida até a parada de ônibus, toda a esperança para que este não esteja lotado. Vi minha intensidade diminuindo, e a revolta sendo cronometrada, não tenho tempo pra isso. Minhas pobres neuroses deixadas de lado, desamparadas, trocadas pela vontade de viver, a conformação e perseverança: não deu assim, de outro jeito há de dar. Meus sonhos se tornaram um: passar no vestibular. E o peito? Batendo sofrido.
Nua, completamente a mostra e frágil, sem letras a me cobrir e palavras a definir. Sem frases por onde caminhar segura, páginas pra me esconder ou livros pra fazer de casa. Eu sempre fui grafia, mas também fonema. Sempre tive voz ativa, palavra na ponta do dedo e desejo por passar pra fora o turbilhão interno que eu carrego, porém hoje, me abstenho. Escuto mais e ainda leio; perco-me em cálculos, diálogo com números e as letras que encontro são incógnitas. É isso, tá tudo tão misterioso, tão vazio, tão...oco. É tanta promessa pro futuro, tanto investimento no amanhã, tanto trabalho hoje. É tanta luta para o que eu nem sei se vem, é tanto esforço pra uma chance que pode fugir. Do amanhã nem o clima conheço e do hoje, só vejo névoa. É caminho desconhecido e eu sem bússola, sem mapa. Não dá pra descrever, nem dá pra escrever. Sentimento voando, entrando e saindo, titubeando, confundindo. Deixo-os ir, e voltam e se perdem e somem, não sobra vogal nem consoante pro papel. Não resta nada em um coração que aprende a deixar ir, é ensinado a deixar entrar e ainda assim, consegue prender, trancafiar a sete chaves o que deveria deixar voando aos quatro ventos. Sumiram as rimas, esgotaram-se os poemas: é tudo rotina, comum, clichê. É cama vazia, comida requentada, esperança sanfonada. É amor triturado, saudade parcelada e um silêncio que não é meu mas que agora eu carrego. É oco, é felicidade entrando e saindo, tristeza perturbando e se esvaindo. Completo-me ao mesmo tempo que me encho de buracos, não sacio, não mato fome, não dou fim a carência. Um entra e sai dentro de mim que deixa tudo pisoteado, é festa e velório, inverno e verão, e eu só sobro oca, vazia de novo. Sorrindo por isso, chorando por aquilo, me sinto o arco-íris em meio ao sol e a chuva. Crescer é uma porrada e talvez minha armadura não seja forte o suficiente, ainda. E quanto mais misturo o que fui com o que me torno e com quem um dia serei, menos me encontro, e até me assusto. Ninguém mais me habita, é transição; são inquilinos, hóspedes temporários, locatários. Bate um solidão que ecoa, um medo que assombra. Corrida sem descanso, cabeça que não para, placa não lida, bilhete não deixado, pedaço de mim reservado. Não escrever é preservar, me esconder. Fingir que não estou sentindo ou pensando, não propagar emoções diversas em formato de texto, não pontuar angústia, virgular intensidade. Ignorar dores que começam miúdas - e não merecem atenção- e proteger alegrias frágeis, que se desfazem quando as divulgamos. Oca de vida, que o dia me dá e a noite me tira, que o pouco sono me leva e o cansaço me ganha. Oca e depois cheia, nesse ciclo de quem quer viver completa quando só sabe ser metade; de quem tenta fazer tudo mas é boa em uma só parte; de quem quer tudo e mais um pouco, porém nem tem onde guardar tanto. Palavras, voltem pra mim, saiam dos livros didáticos, dos resumos, das obrigatórias e das fórmulas, sejam novamente minha cama, alimento e fuga. Deixem-me oca após um desabafo mas voltem a me preencher em cada linha desse meu corpo, que tem um coração que sente, uma cabeça que pensa e mãos dispostas a traduzir o conflito entre os dois.

Texto retirado daqui.

Ilária Oliveira. Tecnologia do Blogger.